Era um homem comum... Comum mesmo. Em tudo: idéias, finanças, modo de viver...
Não entendia para que fazer aquele teste.
_"Perguntinhas bestas...Não eram perguntas...Eram respostas. Como responder respostas? Teste psicológico, que bobagem!"
Pensava o porque de uma firma antiga, com um bando de velhotes respondendo respostas! E pensava: só mesmo o Chagas Filho para propor isto!
Não se conformava, parecia que só estava esperando o pai morrer para mudar tudo, mas não morreu. Que blefe! Ainda aparecia de vez em quando na cadeira de rodas com os olhos arregalados, que revirava pra lá e pra cá... Não falava mais.
_ "Olha pai que beleza!"
Pobre velho, no seu mundo mudo e parado será que entendia? Duvidava.
Devia estar assustado com as mudanças, da parede creme liso nada restava, agora era um embolado de tinta que parece o doce de leite da tia Maria.
E as mesas escuras e encardidas? Também sumiram!
Até o cheiro do lugar tinha mudado! Isto valeu a pena, pensava.
Mas e o teste, essa não. Sentia-se nu. Nu em pêlo respondendo aquilo tudo. Só faltava perguntar quantas vezes por mês ele... E perguntava mesmo. Corava em pensar que era uma mocinha que ia ler! E babava pensando naquela voz: "o Sr Chagas Filho, deu-me permissão para pedir-lhe isto, é facultativo, mas ultralucrativo para vocês".
Sim, e devia contar pontos para aquele cabeludo do Chagas Filho.
Só não entendia para que orientação aos quase 50 anos! Sentia-se um colegial frente
a aquele desnudamento. Acabou respondendo. Respondendo não, colocando um X
nas perguntas_ respostas! Cansou de colocar X.
Será que não era mais fácil fazer uma pergunta do que dar 4 respostas e você colocar um X no quadradinho?
Não alcançava mesmo, achou uma besteira, uma vida comum, equilibrada e feliz esparramada naquelas folhas! Mas era melhor assim. Agradava o Chagas Filho!
Cansou de colocar X. Até esqueceu que era dia de ir à casa de Áurea... Já estava cheio daquela obrigação e ela já estava ficando muito careira, ao invés do preço baixar com idade, subia... É uma profissão que não pode acompanhar a inflação! Só se era para comprar "flor de maçã..." Como cheirava a desgraçada... Dava enjôo!
Resolveu não ir lá e deitar cedo. Ficou um pouco na sacadinha e sentiu saudades de Ouro Fino, da mãe, da tia velha, e resolveu que iria no primeiro feriado. Seria Finados. Aproveitaria para visitar o túmulo do pai e providenciar o mármore que prometera.
O radio do seu Alcides estava tão alto que ou pensava alto ou nem conseguiria!
Acordou sábado sem despertador e correu para pegar o banheiro primeiro. Sábado era sempre difícil. Parecia que a pensão inteira tomava banho sábado de manhã...
Tomou café na mesinha de canto com seu Alcides e lá foi ele a pé até o ponto de ônibus. Lógico que ia a pé. Afinal vivia pregando isto, era uma saudável caminhada e no ponto final, além de ir sentado e no primeiro banco, ia com Filó, o mais popular motorista do bairro! Vinte e três anos na mesma linha!
E lá ia ele lendo o seu jornal. O que atrasava era aquela ruela que tinha que atravessar, que embolação! E sendo empurrado e se desculpando, cumprimentava sem graça e sem intimidade, aqueles velhos conhecidos de 26 anos. Era mesmo uma vida inteira!
E pensava: e bem feliz! Comum...Mas feliz. Até juntar algum dinheiro conseguira. Seus planos eram a principio comprar uma casinha, mas sabendo que a mãe e a tia não sairiam nunca de Ouro Fino, mudou-os. Iria para lá quando se aposentasse.
Iria descansar do descanso que era sua vida!
Pensou no teste outra vez e riu sozinho, mas conformou-se quando viu a pilha de envelopes pardos! Era uma boa "média".
Passou a manhã trabalhando vorazmente, chegou a esquecer o teste.
Saiu ao meio dia, bendizendo não ter que fazer hora extra.
Resolveu que seria um sábado diferente! Ao invés de ir escutar as lamurias do tio, ia escutar o jogo de futebol. E de camisa e cueca passou a tarde deitado.
Domingo horroroso...Cinza, triste, amargo, com jeito de velório.
Foi a missa das onze e voltou para o almoço que aos domingos era sempre melhorado: maionese, inhoque e uma sobremesa diferente. Foi ao cinema do bairro e a casa do irmão.
O sobrinho Alfeu veio trazê-lo de carro. Pouco falaram. O rapaz o constrangia sempre.
Não sabia se o físico bem cuidado, se as roupas coloridas que deixavam seu terno de domingo mais russo e surrado, se a voz forte que o fazia tão marcante.
_ É...Deve ser a voz...
Às oito horas já estava deitado e sem ter o que pensar dormiu. Dormiu sem sonhar, sem se mexer, como defunto.
Quando chegou ao escritório era tão cedo que só a faxineira estava. Pegou firme a papelada e estava até meio tonto quando levantou para o almoço.
Só então viu, viu não ouviu a voz da doutora. _"Puxa, que voz linda...voz de cama..."
Surpreendeu-se com o pensamento. _"Ah deve ser a abstinência de sexta feira...hábito é habito."
Viu a pilha de envelopes e sentiu uma vontade louca de ler e saber tudo dos outros! Foi ao banheiro e esperou uns minutos e saiu.
Os envelopes estavam lá, esperando por ele...Arrumados em três pilhas. Chegou perto
_Ora...Ora...Logo o meu! Não sou tão comum assim!
Abriu o envelope! _Não sou tão comum assim! Chocou-se com tantas observações.
E aquela letra era igual à voz, só que era fria.
Seus olhos pararam exatamente lá: Introversão, alheamento, frustrações, complexos, vazio...
Largou tudo.
O teste besta fora do envelope, o lenço encardido que estava na mão e saiu devagar, apatetado, pesado, arrastando os complexos desconhecidos...As frustrações sem nome...O vazio...A sua vida...
Sumiu.
autora: New Cobra Merhej - em 1973