terça-feira, 4 de outubro de 2011

Conto 2 - Pessoa

As pessoas vivem, sofrem e se destroem, nas ilusões, nos sonhos e nos projetos em que se lançam; elas não representam claramente as posições humana, social e política em que se encontram; e sim, uma característica muito forte com a falsidade de alguma coisa menos autentica. Falam de acordo com o ambiente, os atos se distorcem conforme a necessidade, e as discussões são usadas para encobrir a falta de ação. As pessoas usam as mãos para fazê-las de instrumentos persuasivos, dando-lhes forma para ganhar, pedir, manipular e negar; escolhem o medo para justificar seus problemas, fazem da conversa-profanação, da religião-condição de existência, dos preconceitos-pontos de vista. As pessoas colocam seus heróis em cena, enfeitam o cenário ao máximo, para fantasiar as razões que as levam aos seus atos; estão sempre interessadas pelas coisas que estão mais próximas e que as afetam mais diretamente, tirando de tudo algum proveito. Para falar das pessoas bastam palavras, mais para falar de você basta o que?

Conto 1: O Teste

Era um homem comum... Comum mesmo. Em tudo: idéias, finanças, modo de viver... Não entendia para que fazer aquele teste. _"Perguntinhas bestas...Não eram perguntas...Eram respostas. Como responder respostas? Teste psicológico, que bobagem!" Pensava o porque de uma firma antiga, com um bando de velhotes respondendo respostas! E pensava: só mesmo o Chagas Filho para propor isto! Não se conformava, parecia que só estava esperando o pai morrer para mudar tudo, mas não morreu. Que blefe! Ainda aparecia de vez em quando na cadeira de rodas com os olhos arregalados, que revirava pra lá e pra cá... Não falava mais. _ "Olha pai que beleza!" Pobre velho, no seu mundo mudo e parado será que entendia? Duvidava. Devia estar assustado com as mudanças, da parede creme liso nada restava, agora era um embolado de tinta que parece o doce de leite da tia Maria. E as mesas escuras e encardidas? Também sumiram! Até o cheiro do lugar tinha mudado! Isto valeu a pena, pensava. Mas e o teste, essa não. Sentia-se nu. Nu em pêlo respondendo aquilo tudo. Só faltava perguntar quantas vezes por mês ele... E perguntava mesmo. Corava em pensar que era uma mocinha que ia ler! E babava pensando naquela voz: "o Sr Chagas Filho, deu-me permissão para pedir-lhe isto, é facultativo, mas ultralucrativo para vocês". Sim, e devia contar pontos para aquele cabeludo do Chagas Filho. Só não entendia para que orientação aos quase 50 anos! Sentia-se um colegial frente a aquele desnudamento. Acabou respondendo. Respondendo não, colocando um X nas perguntas_ respostas! Cansou de colocar X. Será que não era mais fácil fazer uma pergunta do que dar 4 respostas e você colocar um X no quadradinho? Não alcançava mesmo, achou uma besteira, uma vida comum, equilibrada e feliz esparramada naquelas folhas! Mas era melhor assim. Agradava o Chagas Filho! Cansou de colocar X. Até esqueceu que era dia de ir à casa de Áurea... Já estava cheio daquela obrigação e ela já estava ficando muito careira, ao invés do preço baixar com idade, subia... É uma profissão que não pode acompanhar a inflação! Só se era para comprar "flor de maçã..." Como cheirava a desgraçada... Dava enjôo! Resolveu não ir lá e deitar cedo. Ficou um pouco na sacadinha e sentiu saudades de Ouro Fino, da mãe, da tia velha, e resolveu que iria no primeiro feriado. Seria Finados. Aproveitaria para visitar o túmulo do pai e providenciar o mármore que prometera. O radio do seu Alcides estava tão alto que ou pensava alto ou nem conseguiria! Acordou sábado sem despertador e correu para pegar o banheiro primeiro. Sábado era sempre difícil. Parecia que a pensão inteira tomava banho sábado de manhã... Tomou café na mesinha de canto com seu Alcides e lá foi ele a pé até o ponto de ônibus. Lógico que ia a pé. Afinal vivia pregando isto, era uma saudável caminhada e no ponto final, além de ir sentado e no primeiro banco, ia com Filó, o mais popular motorista do bairro! Vinte e três anos na mesma linha! E lá ia ele lendo o seu jornal. O que atrasava era aquela ruela que tinha que atravessar, que embolação! E sendo empurrado e se desculpando, cumprimentava sem graça e sem intimidade, aqueles velhos conhecidos de 26 anos. Era mesmo uma vida inteira! E pensava: e bem feliz! Comum...Mas feliz. Até juntar algum dinheiro conseguira. Seus planos eram a principio comprar uma casinha, mas sabendo que a mãe e a tia não sairiam nunca de Ouro Fino, mudou-os. Iria para lá quando se aposentasse. Iria descansar do descanso que era sua vida! Pensou no teste outra vez e riu sozinho, mas conformou-se quando viu a pilha de envelopes pardos! Era uma boa "média". Passou a manhã trabalhando vorazmente, chegou a esquecer o teste. Saiu ao meio dia, bendizendo não ter que fazer hora extra. Resolveu que seria um sábado diferente! Ao invés de ir escutar as lamurias do tio, ia escutar o jogo de futebol. E de camisa e cueca passou a tarde deitado. Domingo horroroso...Cinza, triste, amargo, com jeito de velório. Foi a missa das onze e voltou para o almoço que aos domingos era sempre melhorado: maionese, inhoque e uma sobremesa diferente. Foi ao cinema do bairro e a casa do irmão. O sobrinho Alfeu veio trazê-lo de carro. Pouco falaram. O rapaz o constrangia sempre. Não sabia se o físico bem cuidado, se as roupas coloridas que deixavam seu terno de domingo mais russo e surrado, se a voz forte que o fazia tão marcante. _ É...Deve ser a voz... Às oito horas já estava deitado e sem ter o que pensar dormiu. Dormiu sem sonhar, sem se mexer, como defunto. Quando chegou ao escritório era tão cedo que só a faxineira estava. Pegou firme a papelada e estava até meio tonto quando levantou para o almoço. Só então viu, viu não ouviu a voz da doutora. _"Puxa, que voz linda...voz de cama..." Surpreendeu-se com o pensamento. _"Ah deve ser a abstinência de sexta feira...hábito é habito." Viu a pilha de envelopes e sentiu uma vontade louca de ler e saber tudo dos outros! Foi ao banheiro e esperou uns minutos e saiu. Os envelopes estavam lá, esperando por ele...Arrumados em três pilhas. Chegou perto _Ora...Ora...Logo o meu! Não sou tão comum assim! Abriu o envelope! _Não sou tão comum assim! Chocou-se com tantas observações. E aquela letra era igual à voz, só que era fria. Seus olhos pararam exatamente lá: Introversão, alheamento, frustrações, complexos, vazio... Largou tudo. O teste besta fora do envelope, o lenço encardido que estava na mão e saiu devagar, apatetado, pesado, arrastando os complexos desconhecidos...As frustrações sem nome...O vazio...A sua vida... Sumiu.
autora: New Cobra Merhej - em 1973

domingo, 2 de outubro de 2011

Asas do desejo

(O filme é muito bom! No mesmo nível da Balada de Narayama, tão amargamente existencial quanto!)
É por causa dos angustiantes e infinitos pensamentos das pessoas, na visão passiva e espiritual dos anjos, que dá a eles a vontade de descerem para a Terra e se tornarem ativos ; aí começam a sentir, desejar , interagir ”DE VERDADE”.
Muito bom é o dialogo dos 2 anjos na ponte, onde relembram o origem do planeta...águas, sol, bípedes e etc... e aí eles atravessam o “muro de Berlim”!
E a musiquinha “Quando a criança era criança”...é que elas são como anjos caídos, onde as questões existenciais são mais puras, buscando tambem a razão de existência das coisas.

Amarcord

É uma viagem  ao mundo imaginário e psíquico de Federico Fellini; uma oportunidade para conhecer seu alter ego, onde os acontecimentos e personagens são sincronizados pela passagem das estações.